A revista Veja publicou esta semana uma informação pela metade que é uma pista para se entender o que está acontecendo com a pré-candidatura da senadora Marina Silva pelo Partido Verde, que parou de crescer nos 5% e parece estar fadada ao papel de ter apenas inserido o tema ambiental na campanha eleitoral antecipada.
Diz a nota, na seção Radar, que tem gente graúda no Partido Verde preocupada com o jeito reservado da senadora Marina Silva, que não se deixa envolver por empresários interessados em se tornar doadores de sua futura campanha à presidência da República.
A realidade é outra: Marina entrou no PV a partir de um acordo com a executiva oligárquica que comanda o partido há dez anos, pelo qual ela teria assegurada a metade dos cargos no comando nacional e o mesmo tanto nas executivas estaduais e municipais. Para a executiva nacional, indicou o ex-deputado petista Luciano Zica, que seria o vice-presidente de fato do PV, até um congresso marcado para março de 2010.
Enquanto falava de público sobre “refundar“ o PV, a senadora indicou Zica e mais nove pessoas para compor a executiva nacional provisória, com papel também nas executivas estaduais - todas, praticamente, nomeadas pelo eterno presidente nacional do PV, José Penna, eleito vereador em São Paulo sob protesto de seus companheiros de partido por concentrar recursos e monopolizar o horário de propaganda.
Nas últimas semanas de setembro, antes de findar o prazo para filiação de quem se interessasse em sair candidato nas eleições de outubro de 2010, a executiva de Penna endureceu o jogo e mandou diversos recados aos estados mostrando que ainda mandavam no partido e nenhum “assessorzinho“ da senadora Marina iria mudar este quadro.
Brecaram a entrada no partido de centenas de lideranças em diversos estados e o próprio Zica viu a promessa de poder não sair disso - promessas vazias, que a executiva do PV fez no seu estilo pouco ético e maroto, para atrair a senadora e faturar politicamente com a publicidade que a grande imprensa daria, como efetivamente deu, à sua filiação ao PV para fazer contraponto à ministra Dilma Rousseff entre a esquerda ambientalista desiludida com o PT desenvolvimentista.
O resultado do impasse está aí: Marina não avança nas pesquisas e mostra que prefere levar adiante sua própria estratégia florestalista, contando com o tempo para que a opinião interna no partido crie condições para, no congresso de março, fazer valer seu peso e dos seus novos e velhos aliados. Para isso ela tem o trunfo de ter levado milhares de ex-militantes petistas para o PV, além de conduzir de volta ao partido nomes que há anos estavam afastados, desiludidos com o comando corrupto exercido pela executiva nacional do grupo de Penna.
A dissidência de esquerda do PV, aglutinada em torno do ministro Juca Ferreira, da Cultura, chegou a iniciar negociações com o grupo da senadora, com vistas a concretizar a tal “refundação“ do partido. Como não havia disposição da senadora para partir para o confronto com o grupo de Penna, a dissidência ética - outra denominação de cerca de 30% da militância verde que desde o congresso de 2007 rompeu com Penna - decidiu ficar onde já estava: ao lado do Governo Lula e da candidata Dilma Rousseff, na esperança de esverdeá-la.
Este é o quadro atual. Pode haver mudança? Pode, é claro, como tudo pode em política. Dilma pode perder terreno, Lula pode não conseguir a composição que deseja com o PMDB de Michel Temer e talvez tenha que se acertar direito com o PSB do deputado Ciro Gomes, que eventualmente poderia até substituir Dilma.
Para a executiva do PV, nada mais cômodo: eles já estavam aliados ao PSDB no Rio e em São Paulo, basicamente através das conexões do deputado Fernando Gabeira, futuro candidato ao Senado pelo Rio, com apoio do ex-prefeito César Maia (DEM). Na capital paulista, Penna foi eleito vereador com apoio do DEM do prefeito Gilberto Kassab e continua firme e forte em sua aliança com o PSDB de Serra e o DEM nacional, para as eleições presidenciais.
Em troca, espera ocupar cargos importantes, como todo partidinho faz neste país. Está bem de acordo com o passado de nanico de aluguel que o PV exerceu em vários momentos, em vários estados, inclusive no Distrito Federal.
Ter Marina para tirar voto de Dilma (e de Serra, como mostraram algumas pesquisas) é o melhor dos mundos, pois esconde do público a verdadeira face interna do Partido Verde, sem democracia, eivado de conchavos e acostumado a acordos fisiológicos que beiram a corrupção em vários estados. No DF, por exemplo, o presidente local, Eduardo Brandão, braço direito de Penna, ocupa um cargo de vice-secretário no governo de Jose Arruda, levando junto vários integrantes de seu diretório local, nomeado por Penna.
Para complicar o quadro em desfavor da senadora Marina, a companheira Dilma - que vem da turma de 68 da qual fazem parte Juca Ferreira, Domingos Fernandes e várias lideranças da dissidência de esquerda do PV - está aos poucos assumindo bandeiras dos ambientalistas. Em parte graças aos conselhos de outro companheiro da antiga luta armada, o ministro Franklin Martins, que por sinal conhece muito bem a psicologia verde graças à convivência com (e antipatia ao) companheiro Fernando Gabeira, desde a época do famoso sequestro do embaixador americano.
O que a ética senadora Marina pode fazer diante desse quadro, senão esperar as águas de março para trazer o esperado congresso verde - e contar com novos apagões que a grande imprensa usará para detonar a candidata de Lula?
Quem anda preocupada mesmo é a bancada federal dos verdes, provável fonte da notinha de Veja. Alguns expoentes - são pouquíssimos - temem perder o rastro do meteoro Marina e ainda se ver prejudicados pela camarilha de Penna, quando tudo isso vier à tona.