A guerra civil no Rio de Janeiro, com derrubada de helicópteros por soldados
do narcotráfico, deixa indignado o país todo - mas ninguém se lembra de
rever as causas por trás de tudo: o comércio de drogas consideradas ilegais
por capricho moral das elites nacionais e a péssima distribuição de renda
que deixou aos pobres a ocupação irregular do solo nos morros e encostas.
O único político que ainda toca no cerne da questão é o ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, que já não depende de votos e da opinião pública
manipulada pela grande imprensa. Só ex-presidentes latino-americanos têm a
coragem de colocar o dedo na ferida, denunciando o fracasso da guerra às
drogas e defendendo a legalização do comércio das substâncias proibidas como
única forma para acabar com a violência.
Nem mesmo os antigos revolucionários que ousaram defender a legalição das
drogas como forma de tirar o combustível do narcotráfico - como o deputado
verde Fernando Gabeira e seu adversário Sergio Cabral, o governador
peemedebista do Rio de Janeiro - têm hoje a coragem de levar adiante a tese
da legalização. Temem perder votos, morrem de medo da reação nas urnas da
classe média obtusa, de cabeça feita por padres e pastores, a mesma que
alimenta o tráfico pela ponta do consumo.
Legalizar as drogas é a única forma de tirar o sobrelucro obtido com
o comércio de substâncias demandadas continuamente pela sociedade de
consumo, como a maconha e a cocaína, como demonstrou na década de 1990 o
falecido prêmio Nobel de Economia, Milton Friedman, da Universidade de
Chicago.
Qualquer mercadoria, quando sofre o impacto da cunha proibicionista, gera
este sobrelucro que atrairá sempre novos e crescentes investimentos, pois a
taxa de retorno é excepcionalmente elevada.
Isto explica o fracasso de todas as políticas exclusivamente
repressionistas, como a Europa descobriu há muito tempo, passando a
descriminalizar o uso de drogas e, como na Holanda, a legalizar o seu
comércio.
Explica as razões pelas quais a guerra da droga está sendo perdida
em vidas e dinheiro público nos morros do Rio de Janeiro - a cada traficante
preso ou morto, surgem dez outros dispostos a ganhar dinheiro fácil com o
comércio de substâncias proibidas que os consumidores da classe média
continuarão demandando, a qualquer preço.
Quanto mais se dificulta o comércio dos traficantes, mais sobe o preço e
assim o lucro se mantém, quase independente do volume negociado, atraindo
novos investidores neste ramo de negócios. Portanto, é triste e vergonhoso
para o país deixar tantos policiais e moradores inocentes morrendo
inutilmente nas grandes cidades brasileiras, em nome de uma causa perdida - a
guerra às drogas.
Claro que não basta mudar o status destes produtos psicoativos para
resolver o problema - ao longo das décadas o narcotráfico infiltrou-se no
aparelho estatal, nas polícias, em setores do judiciário. E, claro, criou
sua contrafacção - as milicias, ou grupos paramilitares que sob a desculpa
de livrar as favelas dos traficantes passaram a explorar todo tipo de
negócio ilegal, de gatos de eletricidade a serviços clandestinos de tv a
cabo.
É preciso levar adiante a guerra militar contra narcotráfico e milícias, sem
dúvida, mas isto não basta: há que se retirar simultâneamente a base de
sustentação econômica do inimigo, que é a criminalização das drogas, uma
norma legal que tem como consequência elevar o preço às alturas e criar
lucros superiores a qualquer outro ramo de atividade empresarial.
Mas junto com o combate ao banditismo, será preciso tornar legal este
comércio, acabando com o mercado negro da droga e, em seu lugar, criando um
comércio regulado como outro qualquer, que gere impostos para o Estado
combater a criminalidade, o contrabando de armas e a pobreza, que está na
raiz última da questão.
Mas para isso será preciso muito mais do que a pouca coragem de políticos,
que nunca vão contra a opinião da maioria, mesmo que este seja uma idéia
errada, formulada em cima de preceitos morais, sem nenhuma conexão com a
realidade.
A droga em si não é boa nem má - é apenas mais uma mercadoria no mercado
capitalista. Faz tanto ou mais mal à sociedade como outras drogas
legalizadas - álcool, tabaco, medicamentos, etc. Cabe à sociedade nacional,
liberta dos preconceitos éticos e da falsa moralidade de fundo religioso,
decidir se o comércio destas drogas continuará gerando sobrelucro para
bandidos ou será legalizado, organizado, taxado e regulamentado, para gerar
impostos e ajudar a remover as favelas como expressão da injustiça social.