Principal jornal de economia do país mostra como ruralistas usaram aliança com Lula para investir contra o Código Florestal

2009 October 20
by Joao Arnolfo

A aliança que o PT fez com o PMDB alguns anos atrás, em nome da governabilidade, está na raiz do avanço dos ruralistas contra o Código Florestal, a Lei de Crimes Ambientais e as normas do Conselho Nacional de Meio Ambiente.

É o que confirma matéria publicada hoje pelo Valor Econômico, o mais bem feito jornal de economia do país, uma joint venture dos grupos Roberto Marinho (Globo) e Victor Civita (Abril) que desbancou a antiga Gazeta Mercantil.

Sem a resistência do velho e até recentemente ético Partido dos Trabalhadores (PT), que passou a fazer corpo mole quando se trata de preservar os interesses da maioria da sociedade em defender o meio ambiente, os deputados eleitos pelos latifundiários e empresas do agronegócio deitam e rolam nas comissões.

Dominaram a comissão de meio ambiente, criaram a Frente Parlamentar da Agropecuária e conseguiram impor uma derrota aos ambientalistas ao implantar semana passada a comissão especial que busca substituir o Código Florestal por um “código ambiental“ de mentirinha, à moda do que foi feito em Santa Catarina.

Colocaram como relator um deputado que, mesmo sendo de esquerda,  joga do lado dos desenvolvimentistas: Aldo Rebelo, do PCdoB, não merece a confiança da bancada ambientalista, como dizem Ivan Valente, do PSoL, e Edson Duarte, líder do PV.

O próximo negócio dos ruralistas será obrigar o governo do PT a adiar as multas milionárias que a lei exige até o final do ano dos fazendeiros que desmataram além do permitido e não recompuseram suas reservas legais.

Vai ser um agronegócio de algo como 5 bilhões de reais em multas que deixarão de ser recolhidas ao Fundo Nacional de Meio Ambiente, como demonstra o insuspeito Valor.

Legalização das drogas: como acabar com a guerra civil no Rio e combater a pobreza usando impostos

2009 October 19

A guerra civil no Rio de Janeiro, com derrubada de helicópteros por soldados

do narcotráfico, deixa indignado o país todo - mas ninguém se lembra de

rever as causas por trás de tudo: o comércio de drogas consideradas ilegais

por capricho moral das elites nacionais e a péssima distribuição de renda

que deixou aos pobres a ocupação irregular do solo nos morros e encostas.

O único político que ainda toca no cerne da questão é o ex-presidente

Fernando Henrique Cardoso, que já não depende de votos e da opinião pública

manipulada pela grande imprensa. Só ex-presidentes latino-americanos têm a

coragem de colocar o dedo na ferida, denunciando o fracasso da guerra às

drogas e defendendo a legalização do comércio das substâncias proibidas como

única forma para acabar com a violência.

Nem mesmo os antigos revolucionários que ousaram defender a legalição das

drogas como forma de tirar o combustível do narcotráfico - como o deputado

verde Fernando Gabeira e seu adversário Sergio Cabral, o governador

peemedebista do Rio de Janeiro - têm hoje a coragem de levar adiante a tese

da legalização. Temem perder votos, morrem de medo da reação nas urnas da

classe média obtusa, de cabeça feita por padres e pastores, a mesma que

alimenta o tráfico pela ponta do consumo.

Legalizar as drogas é a única forma de tirar o sobrelucro obtido com

o comércio de substâncias demandadas continuamente pela sociedade de

consumo, como a maconha e a cocaína, como demonstrou na década de 1990 o

falecido prêmio Nobel de Economia, Milton Friedman, da Universidade de

Chicago.

Qualquer mercadoria, quando sofre o impacto da cunha proibicionista, gera

este sobrelucro que atrairá sempre novos e crescentes investimentos, pois a

taxa de retorno é excepcionalmente elevada.

Isto explica o fracasso de todas as políticas exclusivamente

repressionistas, como a Europa descobriu há muito tempo, passando a

descriminalizar o uso de drogas e, como na Holanda, a legalizar o seu

comércio.

Explica as razões pelas quais a guerra da droga está sendo perdida

em vidas e dinheiro público nos morros do Rio de Janeiro - a cada traficante

preso ou morto, surgem dez outros dispostos a ganhar dinheiro fácil com o

comércio de substâncias proibidas que os consumidores da classe média

continuarão demandando, a qualquer preço.

Quanto mais se dificulta o comércio dos traficantes, mais sobe o preço e

assim o lucro se mantém, quase independente do volume negociado, atraindo

novos investidores neste ramo de negócios. Portanto, é triste e vergonhoso

para o país deixar tantos policiais e moradores inocentes morrendo

inutilmente nas grandes cidades brasileiras, em nome de uma causa perdida - a

guerra às drogas.
Claro que não basta mudar o status destes produtos psicoativos para

resolver o problema - ao longo das décadas o narcotráfico infiltrou-se no

aparelho estatal, nas polícias, em setores do judiciário. E, claro, criou

sua contrafacção - as milicias, ou grupos paramilitares que sob a desculpa

de livrar as favelas dos traficantes passaram a explorar todo tipo de

negócio ilegal, de gatos de eletricidade a serviços clandestinos de tv a

cabo.

É preciso levar adiante a guerra militar contra narcotráfico e milícias, sem

dúvida, mas isto não basta: há que se retirar simultâneamente a base de

sustentação econômica do inimigo, que é a criminalização das drogas, uma

norma legal que tem como consequência elevar o preço às alturas e criar

lucros superiores a qualquer outro ramo de atividade empresarial.

Mas junto com o combate ao banditismo, será preciso tornar legal este

comércio, acabando com o mercado negro da droga e, em seu lugar, criando um

comércio regulado como outro qualquer, que gere impostos para o Estado

combater a criminalidade, o contrabando de armas e a pobreza, que está na

raiz última da questão.

Mas para isso será preciso muito mais do que a pouca coragem de políticos,

que nunca vão contra a opinião da maioria, mesmo que este seja uma idéia

errada, formulada em cima de preceitos morais, sem nenhuma conexão com a

realidade.

A droga em si não é boa nem má - é apenas mais uma mercadoria no mercado

capitalista. Faz tanto ou mais mal à sociedade como outras drogas

legalizadas - álcool, tabaco, medicamentos, etc. Cabe à sociedade nacional,

liberta dos preconceitos éticos e da falsa moralidade de fundo religioso,

decidir se o comércio destas drogas continuará gerando sobrelucro para

bandidos ou será legalizado, organizado, taxado e regulamentado, para gerar

impostos e ajudar a remover as favelas como expressão da injustiça social.

Memórias Reveladas: agora só falta abrir arquivos e punir torturadores

2009 October 18

Chama a atenção a campanha que o Governo Federal faz no rádio, jornais e televisão pedindo às pessoas para apresentarem informações que possam levar à descoberta do que aconteceu com os mais de 130 desaparecidos políticos da época da ditadura.

Memórias Reveladas é uma campanha tecnicamente bem feita, toca as pessoas pelos depoimentos de familiares e serve de alerta aos que participaram direta ou indiretamente dos atos bárbaros da repressão política entre 1964 e 1985.

E cumpre algum papel educativo para os mais jovens, que nem sempre têm uma idéia clara do que aconteceu nos porões da ditadura, inclusive porque o discurso da direita persiste, procurando amenizar os crimes e dizer que os perseguidos é que seriam os culpados, por estarem tentando subverter a ordem dos generais.

Mas a campanha peca no essencial, que é a busca da verdade.

Se o governo quisesse mesmo saber e publicar o que aconteceu - por exemplo, com os companheiros Honestino Guimarães, da Universidade de Brasília, ou Marco Antonio Dias Batista, da Frente Revolucionária Estudantil, de Goiânia, para ficar em dois nomes com quem convivemos - não precisava gastar R$ 13,5 milhões com a campanha.

Bastava  mandar, por decreto, que todos os arquivos do Exército, Marinha e Aeronáutica, bem como do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) e da Polícia Federal e das secretarias estaduais de segurança, fossem totalmente abertos.

Se não tem poder sobre os antigos órgãos de repressão, que poderiam ter escondido ou destruído os arquivos, o governo teria outro caminho se fosse sincera sua vontade de esclarecer tudo: bastaria proibir o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e os advogados da União, entre outros, de defender a anistia para ex-torturadores.

Seria o bastante  para que corressem livremente os processos abertos pelo Ministério Público contra, por exemplo, o antigo dirigente do DOPS paulista, coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Ou contra  centenas de outros torturadores que estão soltos e impunes - muitos viraram até autores de livros mal escritos de autodefesa ideológica, como o próprio Ustra e o capitão Aluisio Madruga, que comandou o Pelotão de Investigações Criminais (PIC) da Polícia do Exército, em Brasília, onde tanta gente foi torturada e alguns desapareceram, como o ex-líder camponês José Porfirio, de Trombas, Goiás.

Como denuncia o Movimento Tortura Nunca Mais, a campanha do governo não transmite sinceridade.  Pode até ser que estejam bem intencionados os antigos companheiros guerrilheiros que hoje estão no ministério do Governo Lula, quando mandam fazer este tipo de campanha - mas não contribuem para o acerto de contas com a história, pois dá a impressão de quererem colocar panos quentes sem de fato tomar as atitudes que precisam ser tomadas, mesmo contrariando o Clube Militar do Rio de Janeiro, ninho ideológico da extrema direita.

Ou será que a campanha Memórias Reveladas não se destina mais a evitar que o Brasil seja condenado em tribunais internacionais por deixar de punir torturadores do que, digamos, apurar realmente a verdade? Ou apenas jogar o assunto na mídia este ano para que em 2010 estas lembranças não assustem a classe média conservadora que acredita que guerrilheiro contra a ditadura era terrorista, como escreve até hoje a revista Veja?

Se os advogados da União pararem de contestar os processos abertos pelo Ministério Público, como no caso de São Paulo, já teríamos muita gente sendo condenada na justiça por morte, tortura e desaparecimento de adversários da ditadura militar.

Com isso descobririamos a verdade sobre os desaparecidos, pois os velhos torturadores acabariam entregando seus mandantes e a macabra teia dos DOI-CODIs seria revelada de vez.

O Brasil é uma vergonhosa exceção,  uma das poucas grandes nações que não julga seus criminosos de guerra interna como foram os comandantes da tortura e dos desaparecimentos. Pelo mesmo motivo que o PSDB dos ex-perseguidos pela ditadura Fernando Henrique e José Serra não conseguiu governar sem o ex-PFL, assim como o PT de Lula não governa sem o PMDB conservador.

Mostra que realmente aqui nunca se resolvem as contradições históricas porque isso não interessa à classe dominante - como ocorreu com a independência, com a proclamação da republiqueta dos militares, com os golpes contra os movimentos populares como Canudos e outras tantas mentiras da história oficial.

Até o Paraguai acaba de abrir seus arquivos da ditadura. No Chile, há dezenas de militares condenados e presos.  A Argentina tem até velhos generais que trocaram a Casa Rosada pela cadeia. No Uruguai idem - e por quê os torturadores brasileiros continuam impunes? Por que uma parte do governo continua negando os tratados internacionais que dizem ser a tortura crime imprescritível?

Enquanto os criminosos da ditadura não forem processados e punidos, com seus nomes execrados oficialmente, ninguém levará a sério campanhas publicitárias bem feitas mas sem credibilidade histórica, como esta Memórias Reveladas que nada revelam porque não há vontade política para isto.

Aliança do PT com o PMDB prepara desmonte da legislação ambiental

2009 October 15

Na contramão da história, o Brasil afunda-se na falta de compromisso com o meio ambiente e se deixa arrastar pela visão atrasada do desenvolvimentismo capitalista, recusando-se a tomar medidas contra o agravamento do aquecimento global e a procurar novos caminhos sustentáveis para sua economia.

À falta de clareza do Executivo na fixação de metas de redução das emissões de gases do efeito estufa, que ficou evidente em reunião do presidente Lula com alguns ministros na terça-feira (13), seguiu-se nesta quarta-feira (14) um acordo na Câmara dos Deputados destinado a desmontar a legislação de proteção ambiental em nome dos interesses dos grandes agropecuaristas.

Destinada a substituir o Código Florestal e a lei de crimes ambientais por uma farsa chamada de “código ambiental“, uma comissão especial elegeu nesta quarta-feira (14) o ruralista Moacir Micheletto (PMDB-SC) como presidente e o nacional-desenvolvimentista Aldo Rebelo (PCdoB-SP) como relator.

“Isto significa entregar o galinheiro para a raposa tomar conta“, disse o deputado Ivan Valente (PSoL-SP). O novo líder do Partido Verde, Edson Duarte (BA), que vinha conseguindo adiar a instalação da comissão, denunciou as manobras que unem governo e PMDB, logo quando o país mais precisa de um modelo sustentável de desenvolvimento.

A comissão, dominada pela bancada ruralista, pretende ainda este ano rever toda a legislação brasileira, retirar poderes do Conselho Nacional de Meio Ambiente, enquadrar o Ibama, permitir que cada Estado faça suas próprias normas ambientais e rever as multas aos proprietários de fazendas que deixaram de recompor as reservas legais.

Na próxima semana o presidente Lula e a ministra Dilma Rousseff, candidata à presidência da República pelo PT/PMDB em 2010, devem reunir-se novamente com os ministros Carlos Minc, do Meio Ambiente, e Celso Amorim, das Relações Exteriores, para tentar definir a nebulosa proposta em gestação para ser levada à reunião da ONU sobre o clima, em Copenhagen, no início de dezembro.

A meta do Ministério do Meio Ambiente de reduzir o desmatamento em 80% até 2020, a partir dos níveis de 2005, precisa ser traduzida por algum compromisso do país com a redução das emissões de gás carbono, de modo a convencer o mundo de que o país está disposto a evitar a destruição da floresta amazônica e agravar os problemas climáticos do planeta.

Conhecida por suas posições desenvolvimentistas,  a ministra quer que as projeções não prejudiquem suas intenções de permitir que a economia cresça anualmente pelo menos 5% na próxima década. Não se fala em mudar o modelo econômico, para substituir o atual desenvolvimentismo por uma economia verde.

Os grandes industriais, representados pela Confederação Nacional da Indústria,  apoiam os ruralistas na mudança das leis ambientais e já advertiram o governo para não assumir compromissos externos que possam significar restrições ao crescimento econômico tradicional.

Dirigente do PV diz que haverá aliança do DEM com Marina

2009 October 12

No mesmo sábado em que a senadora Marina Silva (PV-AC) recebia um prêmio internacional na Europa, por sua defesa do meio ambiente, um dirigente do seu Partido Verde aparecia na imprensa de Brasília dizendo que ela terá na Capital Federal, em 2010, o palanque do antiecológico, ruralista e retrógrado Partido Democrata (DEM), expressão máxima da direita que luta diariamente no Congresso para desmontar a legislação ambiental brasileira.

Com suas origens populares e sua postura de esquerda, sempre em defesa dos oprimidos, dos que nada têm além de seus braços para trabalhar, a senadora Marina Silva jamais se aliaria aos direitistas donos do capital e dos demais meios de produção, que exploram a força de trabalho dos assalariados, destroem os recursos naturais da humanidade e poluem o planeta em nome do lucro apropriado por suas empresas.

Jamais ela se aliaria aos capitalistas selvagens, aos donos dos bancos, aos latifundiários, aos ideólogos da extrema direita e aos representantes da bancada ruralista que investe vergonhosamente contra o Código Florestal, a Lei de Crimes Ambientais, as normas do Conselho Nacional do Meio Ambiente e tudo que ainda faz do Brasil uma promessa de potência ambiental.

Em nenhuma hipótese a ex-ministra Marina Silva, que comandou a pasta do Meio Ambiente, jogaria fora sua história de mais de duas décadas no Partido dos Trabalhadores, nas lutas que aprendeu na vida dura dos seringais do Acre, nos empates de Chico Mendes contra os grileiros e na batalha contra os madeireiros que vêm acabando com a Amazônia em nome do lucro criminoso que pavimenta a estrada da miséria urbana.
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Aconteça o que acontecer, ela nunca ficaria do lado da bancada ruralista capitaneada pelo DEM, que se estribucha no Congresso para fugir das multas devidas pelos grandes fazendeiros que destruíram suas reservas legais, ameaçando colocar o país na contramão da história quando chegar dezembro e o Brasil tiver que apresentar suas metas de redução das emissões de carbono que provocam o aquecimento global.

Enfim, a companheira Marina, que sempre ficou do lado do povo pobre e da aplicação rigorosa da lei de crimes ambientais, jamais subiria em palanques dos direitistas do DEM, sigla adotada pelo antigo Partido da Frente Liberal (PFL) para confundir os eleitores. Qualquer brasileiro médio sabe que este é o partido que reúne o que há de mais retrógrado em matéria de idéias políticas, o que há de mais forte em defesa de interesses dos grandes fazendeiros antiecológicos, dos grandes banqueiros e das multinacionais apátridas que no passado sustentaram a ditadura militar.

Pois bem, como a senadora Marina defende a ética, a justiça social e o meio ambiente, não aceitará em hipótese alguma o apoio dos coronéis, latifundiários, ruralistas, madeireiros e demais direitistas agrupados em torno do DEM e de seus aliados nanicos, os partidinhos de aluguel da mesma cepa ideológica.

Então, como explicar as declarações publicadas no Correio Braziliense deste sábado (10/10/09) pelo presidente do Partido Verde no Distrito Federal, o empreiteiro Eduardo Brandão, de que o partido está preparando em Brasilia o palanque do DEM para receber a futura candidata Marina Silva? Em nome de quem ele está falando?

Conhecido até nos autos dos processos do TSE como braço direito do hoje vereador José Penna (SP), presidente quase perpétuo do PV nacional (há dez anos), Brandão tem suas razões pessoais - e empresariais - para defender o DEM: foi ele que implodiu o que ainda havia de ético no PV-DF ao levar seu diminuto diretório distrital (provisório) a se aboletar em carguinhos de baixo escalão no Governo do Distrito Federal, comandado pelo único governador que o PLF, aliás DEM, conseguiu eleger no país, há três anos, o ex-senador José Arruda, aquele que renunciou para não ser cassado no escândalo do painel do Senado, anos atrás.

Quem tem história e imagem pública a defender, se afastou há cerca de dois anos das reuniões esporádicas, fechadas e antidemocráticas do grupinho direitista de Penna/Brandão na capital federal. Até o antigo vice-presidente do PV-DF e ex-candidato a vice-governador na aliança com o PT nas eleições de 2006, Gastão Ramos, não resistiu - e acabou passando para o Partido Socialista Brasileiro (PSB), para manter a coerência.

O mínimo que Brandão deveria ter feito, além de esclarecer as dúvidas que ainda pairam sobre as contas nacionais do partido no TSE de 2006 em diante, seria deixar o governo do DEM quando a senadora Marina, de esquerda, filiou-se ao partido, sob a promessa da velha oligarquia dirigente de que haveria uma refundação do PV, tanto a nível nacional quanto nas unidades da Federação.

Falou-se em formar uma nova executiva, com metade dos antigos pennistas e outro tanto dos novos militantes pró-Marina, de modo a se preparar um congresso nacional no primeiro trimestre de 2010 - seria o terceiro congresso em mais de vinte de anos, para se ter uma idéia de como as coisas funcionaram este tempo todo entre os ditos verdes brasileiros.

Mas nem mesmo esta promessa, feita de público, está sendo levado a sério pelos antigos donos do PV - continuam dando as cartas de forma autoritária e unilateral, sem ao menos consultar o conselho político da senadora Marina Silva.

Impediram em alguns estados a filiação de quadros valiosos até o último prazo, com receio de serem derrotados em futuras convenções, e desdenham internamente dos novos companheiros ambientalistas, em geral oriundos do PT, que passaram para o PV na onda de esperança criada pela entrada da senadora acreana.

Agora, com as declarações dadas ao Correio Braziliense no final de semana, as coisas ficam claras como a luz do sol que entra nas clareiras deixadas pelos madeireiros ilegais na Amazônia - de que lado estamos, afinal?

Certamente nós, que lutamos contra a ditadura, não estamos nem nunca estaremos com o DEM dos ruralistas - e nem a senadora Marina, com certeza, vai aceitar estas ofertas indecorosas de palanques da direita.

Executiva do PV não cumpre acordo com equipe da senadora Marina

2009 October 11

A executiva nacional do Partido Verde não joga às claras com a equipe da senadora Marina Silva. Acertaram uma composição meio a meio, com dez pessoas indicadas pela pré-candidata e outras dez da antiga executiva que comanda o partido há dez anos, mas na semana passada isto mostrou-se mais uma falácia.

Fizeram de conta que estavam dividindo o comando do partido, agora dão a entender que se trata apenas de uma comissão consultiva, algo como o embrião de uma futura coordenação de campanha. Mas quem continua dando as cartas e mantendo o partido atrelado à direita é a velha e desacreditada executiva.

As listas de nomes de interessados em se filiar nos diretórios estaduais (quase todos provisórios, mantidos por indicação da nacional e nunca por eleição interna) foram passadas pelo pente fino da turma antiga, que rejeitou a maior parte, sem dar chances à equipe da senadora de interferir a tempo de modo a mudar a correlação de forças.

Mandaram recadinhos desaforados, dizendo que assessores da senadora não tëm poder algum na executiva - ao contrário do que havia sido informado à imprensa durante o show de filiação da ex-ministra do Meio Ambiente, em São Pailo, no mês passado, quando ela prometeu refundar o PV.

Bem fez o companheiro Juca Ferreira, líder da dissidência de esquerda, declarando na época, em linguagem diplomática, que o partido não estava preparado para receber a herdeira do espírito de Chico Mendes.

Em todos os casos da última semana de setembro ficou claro também que os eternos dirigentes verdes não pretendem deixar a opção preferencial pela direita - com a coligação feita por cima em SP com a dupla Serra/Kassab (PSDB-DEM), ou aliança de Fernando Gabeira com o PSDB e o PPS em o apoio implícito do DEM de César Maia, no Rio de Janeiro.

Em unidades da Federação de menor importância para o partido, onde praticamente não tem ninguém eleito após 20 e tantos anos de existência, permanece a orientação da executiva nacional para continuar o regime de aluguel do partido às oligarquias endinheiradas.

Em Goiás, sem ouvirem sequer o único prefeito e o único vereador eleitos em 2008, recusam-se a sair da órbita de controle do PSDB comandado pelo senador Marcone Perilo, impedindo a filiação de centenas de militantes ambientalistas que se entusiasmaram com a candidatura da senadora Marina Silva.

Seria uma surpresa positiva se, nos próximos dias, alguém contraditar esta informação - mostrará que o grupo da senadora conseguiu algum progresso. Ou, na pior das hipóteses, que a camarilha refez as contas e viu que a aliança montada pelo presidente Lula naquele estado tem mais chances de ganhar em 2010, logo é melhor saltar fora do barco direitista.

Em Brasília, o partido não existe, nunca elegeu ninguém, não tem diretório permanente, não faz eleições internas etc - seu dono, digo, presidente não eleito, sempre apontado e reapontado pela canetada da executiva nacional há uma década, continua com seu carguinho de sub numa secretaria inexpressiva do Governo de José Arruda (DEM), para onde onde levou a maior parte do diretório de mentirinha, indicado, não eleito, para ocupar cargos e se preparar para apoiar a corrente da direita no ano que vem.

Na imprensa plantam notinhas de que sairão com chapa completa - quem decidiu? Qual convenção? Quem votou? Com quais nomes? De onde virão os recursos?

Na realidade contiuam em conluio com o DEM e com toda a cambada da direita que destruiu ambientalmente o Distrito Federal com a grilagem das terras, nos últimos governos de Joaquim Roriz e sua turma, agora alojada no governo Arruda.

Provavelmente estes falsos verdes estão maquinando a manjada estratégia de sair no primeiro turno com candidaturas que tirem algum voto da juventude idealista que ainda acredita na grife verde (e que de outra forma votaria com o campo progressista da esquerda), com dois objetivos: embaralhar o jogo e dividir, em vez de se unir ao campo da esquerda liderada pelo PT; e, depois, para tirarem melhor proveito no segundo turno, quando certamente farão aliança com quem estiver mais bem colocado nas pesquisas, de modo a assegurarem a continuidade do empreguinhos na máquina estatal.

Moral da história: o Partido Verde comandado pela atual executiva paulista não tem o menor compromisso ideológico com o que quer que seja, nem com o ambientalismo, nem com qualquer corrente de pensamento, muito menos com seu estatuto progressista e seus princípios universais. Seu único compromisso é com o mais mesquinho interesse pessoal de continuar controlando a grife verde, com todo desprezo pela democracia, pelas idéias, pela honestidade e pelos princípios ético-ambientalistas.

Com esta velha desculpa de não estar à esquerda nem à direita, a camarilha dos dirigentes do PV faz sim o jogo da direita, dos donos do grande capital, dos meios de produção, das fábricas, do dinheiro, dos bancos e das terras, hoje bem representados pela coligação direitista PSDB/DEM e seus partidos-satélites de aluguel.

Se não fosse pela Dissidência Ética, representada pela corrente do ministro Juca Ferreira, da Cultura - indicado a contragosto do partido por decisão particular do presidente Lula - já teríamos todos nos desfiliado em massa, assim como ao longo dos anos a militância idealista do partido vem se afastando rapidamente e se juntando em redes sociais na internet.

Mas vamos dar mais algum tempo e ver se a companheira Marina e sua equipe tem ou não tem a força necessária para se impor à manjada executiva nacional - se não tiver, nem adianta ficar esperando o tal congresso prometido para os próximos meses, onde se daria a prometida refundação do partido verde no Brasil.

Por estas e tantas outras, de pouco adianta o entusiasmo popular em torno da figura carismática da ex-seringueira do Acre que virou símbolo de defesa da Amazônia, se por trás existe o mesmo e velho partido sem democracia interna, baseada nos jogos de interesses pessoais, inconfessáveis, das alianças de bastidores, dos acordos excusos, do mais atrasado jogo político digno muito mais de uma república bananeira do que de uma democracia de massas que vem se construindo no Brasil.

PS - Só para lembrar, o honesto deputado federal Dr. Nechar achou por sair do partido, por absoluta falta de espaço em SP, onde nunca concordou com o jogo pequeno da executiva nacional e por ela foi alijado.